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Radiação

7 de agosto de 2009
Ilustração de Márcia Rocha

Ilustração de Márcia Rocha

Guarda-chuvas e carros parados – 8o. Quadro da obra ZEROMUNDO

7 de agosto de 2009

O sopro do vento, vindo do apenas de nem ser, bate em alguém… um cidadão que um dia disse ter querido ser outra pessoa, um não um, auto caracterizado de autor e menos incomum que, caminhando, aguardava sua história. Ele observava o guarda-chuva azul vivo indo embora de suas

mãos na batida do sopro do vento, enquanto livros vermelhos caiam secos das árvores, um a cada passo, sobre os seus sapatos novos. Acompanhei-o, naquela manhã escondendo minha ficção e permitindo expressões de lugares necessários (como o banco do jardim) para uma vida de herói, de

mocinho, de malandro ou de poeta. Dava-lhe toda atenção às ideias de ser um não é, deixando sua existência imaginária anônima avivar-se em sua fé. Ele me mostrou seu relógio denunciando que a estação que nos rodeava proporcionava uma luz charmosa e delicada do andar do velho pôr-do-sol

refletido nos óculos de grau daquela prostituta apaixonada. Garoava uma estética luz úmida que caía e flutuava sobre as horas dos relógios da vida que passavam por ali. Ele me falou da relação do pudor com os sapatos e da semelhança da nobreza com os sonhos e o sorriso, mas sempre advertia, com sede de verdades e a fome de um deus. Não quero qualquer salvação! Não sei por quanto tempo caminhamos em seu sonho, porém não parou de falar sobre o prazer que fica inerte na paixão do céu do homem que, aliás, não era uma paixão, mas dezoito paixões que viviam no céu dos homens e que somente as divindades cultuadas foram os únicos seres que, tirados da inércia, sentiram todas as dezoito. Quando ele voltou ao seu silêncio, seus olhos se abriram andarilhos falantes e uma brisa trouxe de volta o guarda-chuva azul com uma linda mulher que pedia uma informação sobre a localização de uma rua. Ele não ouviu palavras, ouviu cores (Não sei por que ri.) e, de um certo modo, ele riu, misturando seu olhar às cores do movimento dos lábios da moça, mas minha distração só permitiu ouvir parte do seu pensamento. Quem tem coração não cultiva olheiras que pedem a luz da ilusão para que não se pense demais nas dores da mente e nas chamas das feridas. Quando se vai por calçadas contando carros molhados no congestionamento, sempre existem seus iguais fundidos no vento, como fantasmas que tocam você numa alegria diferente. A moça, agradecida, se perdeu definitivamente lá na esquina. Não tive resposta para minha indagação sobre qual foi orientação dada,

mas uma tensão emergiu no meu desejo de saber. Ele apanhou um dos livros vermelhos que estavam sobre seus sapatos, percebendo o silêncio do sopro do vento. Eu, que me achava entre muitas pessoas que caminhavam olhando para a rua e para céu, desapareci num tropicar na calçada e o mundo pareceu inteiro como nunca visto. Eu sei que alguém me viu por de trás daquele automóvel parado no trânsito molhado, enquanto o autor ia com seu guarda chuva e livros fechados.