“RETOQUES” – Stéphane Mallarmé (1842-1898)

“Soou a hora – certamente vaticinada pelo livro – onde a visão importuna do personagem que perturbava a pureza do espelho quimérico no qual eu me aprecia, graças à luz, vai desaparecer, esse facho por mim levado: desaparecer como todos os outros personagens sumidos em tempo de tapeçarias, que apenas eram conservadas porque o acaso era negado pelo livro de magia, com o qual vou igualmente sumir. Ó sorte! A pureza não pode firmar-se – eis que a obscuridade substituirá – e que as pesadas cortinas tombando em tempo farão as trevas – enquanto o livro com as páginas fechadas todas as noites, e a luz o dia que elas apartaram. Entretanto os móveis hão de preservar sua ausência, e agonia do sonho quimérico e puro, um frasco contém a substância do Nada.
E agora não há mais do que sombra e silêncio.
Que o personagem que perturbou essa pureza pegue esse frasco que o vaticinava e a ele se amalgame, mais tarde: mas que o coloque simplesmente em seu seio, indo se fazer absolver do movimento.” (Poemas, tradução de José Lino Grünewald, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 101.

Retrato de Stéphane Mallarmé pintado por Édouard Manet.

Retrato de Stéphane Mallarmé pintado por Édouard Manet.

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