Apresento Eloi Fonseca e o seu “VAMPIRO”

O texto se apresenta através de uma narrativa de cenas comuns e rotineiras descritos com leveza, calma e uma certa indiferença de opinião do narrador sobre o conto de surrealismo sutil. Essa indiferença clama contribi para uma idéia de que coisas incomuns, que acontecem numa simples viajem de transporte coletivo num final de tarde, apesar das pessoas não estarem atentas para o incomum.
Não sei se era pretensão do autor, mas gostei do modo que a descrição das cenas pareciam substituir ou unir os pensamentos personagens num contexto de intenções determinantes e ocultas (as intenções do vampiro) que vinculam todos como algo fatal e inevitável que o início da noite traria. A heroína se salvou? O vampiro foi apanhado em sua pequena e sinistra satisfação? Leiam e descubram as respostas.

“Nada há na outra, muito menos então, na via expressa, mas as folhas das árvores do belo parque meio perdido entre as arquiteturas sofisticadas dos grandes prédios tremem por instigação do sopro fraco do vento noroeste, e Arlindo por sua vez fincado na plataforma de embarque, com as pernas abertas, agita inquieto o bolso do lado direito do casaco.
Ainda longe, sem séqüito, a mancha marrom-escura aparece para acender o letreiro como querendo quebrar a modorra da tarde e avança. Nisso Arlindo, tremendo os lábios que nem as folhas das árvores do parque meio perdido entre os arranha-céus, dá um tempo e nervosamente ergue o braço.
Já o sol sem licença atravessa, na tarde vazia de segunda-feira de feriado, a vidraça do ônibus marrom-escuro; e Analice, sentada no antepenúltimo banco do ônibus ermo, não procura por apatia um lugar confortável, sem o reflexo que castiga os olhos azuis.
Sobe, encosta o cartão eletrônico no processador de passagem, indiferente ao cobrador que cochila, e resoluto Arlindo rola a catraca derrubando os olhos congestionados de sangue sobre a pele muito clara do colo de Analice. Ajeita-se atrás dela.
Segue o ônibus. No ponto adiante, pega mais dois passageiros, personagens de histórias desiguais das principais, acontecendo, entretanto, ao mesmo tempo. E assim… Mal a moça se acomoda no banco, o rapaz a traz para seu regaço acariciando-lhe o pescoço. Ela geme baixinho enquanto o motorista isolado na cabina improvisada de grosso pano vermelho barrado de tecido florido toca em frente.
O sol ainda teima no horizonte da cidade vazia. Quase rente ao portal de colunas gregas, a luz bate na cabeça do anjo de bronze polido ressuscitando, num feriado frio de segunda-feira, aquele espaço de mortos de cidade em serena agonia.
Já na alça do encosto do banco, joga a mão e vai vagarosamente roçando com as pontas dos dedos ásperos de calosidade e pequenas feridas o ombro nu de Analice que prende, num arrepio, o lábio nos dentes claros, num contraste impressionante com o vermelho vivo do batom. Diante da curva, na entrada da terceira via, Arlindo deixa, como se fosse inevitável, os dedos descerem pelo braço alvo; e numa aspiração profunda Analice, na delícia, fecha os olhos muito azuis.
O sol já se pôs, mas como quisesse deixar uma tela a óleo no firmamento derrama, nas nuvens brancas esgarçadas, a cor rosa que mitiga o frio azul dele. E, no ápice, aponta a estrela solitária que fixa ponto.
Ainda na mesma avenida, agora com ausência de via expressa, os pássaros trilam sem dar descanso, nas copas das árvores da pequena praça com bancos, mas sem estátuas; apenas um homem que dá sinal e entra ficando no banco defronte do cobrador. De olhos arregalados, sem qualquer movimento, numa expressão atônita, policia o cobrador que agora dorme.
Na entrada da quinta avenida, já é noite, o motorista alienado na cabina improvisada por ele com o tecido grosso de barra florida reduz a velocidade para entrar na fila provocada pelos cones listrados da polícia à caça dos bandidos. Aí o moço da moça com dor levanta e dá um recado ao motorista. No retorno ao banco, embora agora já perto da sexta estação de embarque e desembarque, ele tira o lenço e delicadamente enxuga o suor dela que ainda geme baixinho. Nisso o rapaz afobado na travessia pela mudança do sinal de pedestre esfola o joelho no canteiro de flores da ilha da sétima avenida, mas fica de pé ligeiro espanando a terra das calças e atando o lenço na perna.
Sem trégua, num olhar ainda absorto sobre o cobrador do ônibus que no momento tenta, num comportamento contínuo de sobe-e-despenca a cabeça, combater o sono imbatível, o homem da praça sem estátuas levanta-se para ir até ele que do susto rápido desperta disparando o alarme. No solavanco por freada meio brusca, a moça do moço do lenço geme pouco mais alto quando Arlindo crava as unhas sujas na pele macia de Analice. Logo a calhar, o homem de olhar perdido da praça com bancos desce apressado para encontrar as mulheres na oitava estação que bem lá no fundo da escuridão da avenida arborizada vê-se o luminoso “Casa de Repouso Bom Jesus”. Fora isso, apenas a queda do crucifixo do retrovisor com a do afogueamento da pele branca levemente comprimida pelos calejados dedos de unhas sujas.
Por detrás do banco da moça que geme, a água escorre e o moço que cuida, já sem o casaco nas costas, põe carinhosamente sobre o ombro trêmulo dela.
Chega-se à décima estação da décima via. Está-se defronte à Maternidade Mãe de Deus quando o moço do lenço, já no bolso, desce com desvelo a moça com dor para que o motorista encapsulado observe o sofrimento pelo retrovisor, entretanto, com o crucifixo já pendurado.
Engata no arranho a primeira e sai. Restam, na carroceria marrom-escura, os dois tripulantes, Analice e Arlindo. Sem qualquer ruído de carburador, entra na avenida Pio XI daí avistando o cruzeiro de pau preto distante, bem lá no centro da praça circular no alto da décima quarta avenida onde fica o ponto final. Não há mais nada a esperar.
Arlindo puxa do bolso do lado direito do casaco a lâmina afiada que escorre mansamente sobre o braço nu de Analice deixando os pêlos louros, finos e arrepiados tomarem a tonalidade dos olhos dele e com o dedo de calos e feridas retém o líquido grosso que ele leva com sofreguidão à boca. Excomungado! Grita o cobrador do ônibus quando Arlindo já dobra a última travessa da décima primeira avenida.
Analice azul, de olhos arregalados, num gemido, desliza para o assoalho frio até que o motorista do ônibus acelerado procura chegar à padaria, a Rainha da Décima Terceira Avenida.
Seguem para ser recolhidos na cabina do fiscal à espera da rendição cabível, mas Analice fica para ser ouvida pelo policial de plantão com um copo d’água com açúcar na mesa da padaria.”

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