TAPETE AZUL CUMPRIDO – 19º. QUADRO DA OBRA ZEROMUNDO

Minha vida. Qualquer coisa de melancolia e desculpas por um atraso ou fracasso qualquer. Minha vida. Flores colhidas, um prato do dia, Relógio do meio dia, sorte e tristeza, loucura e pobreza, toalha de mesa e migalha de pão. Então, é minha vida. Nascida na ladeira a baixo, mas que foi crescendo ladeira acima desviando-se de cadeiras de rodas, flores de bodas e dos cadernos de tabuadas das somas perdidas e descontroladas. Minha Vida, uma porção e coisas que são esquecidas nos armários, caixas de sapatos, aquários e retratos de documentos de identificação, tudo que fica empilhado do lado do sofá de frente para a televisão, enquanto o tempo flui num fio de eletricidade. Minha vida, um gosto de fome de paz depois da guerra perdida, uma lembrança de poesia não escrita, uma sensação de mãos mais atrevidas, que só a retórica dos dedos em calcinhas e sutiãs podem descrever. Minha vida, no vai e vem, já teceu o esquecimento do último encontro, sem qualquer intenção de bilhetes prévios. Sem telefone tocando, minha vida, indo e vindo sobre o tapete azul da sala, passa pelo brilho olhar dela que me esperava com seu desejo de finalmente me beijar e, no seu beijo, minha vida caberá num grito, num ponto agudo, numa falta de ar, numa palavra pressionando para jorrar ou explodir para, depois do desespero, eu compreender e derramar uma lágrima pela beleza daquela lembrança, do cantar, do falar daquele lugar que um dia (eu nem sabia) você estava lá. O fim e início da minha vida estará na porta do meu apartamento para a passagem pelo deserto de todas solidões que em mim residem. Serei conduzido pelos meus primeiros passos escritos sobre um não para além do meu olhar, até afastar a cortina colorida das suposições do desejo e alcançar o caminho que todos nós encontraremos sem vê-lo. Ouvirei, assim, os mensageiros do vento que falarão do passado e do futuro e seus sons abriram meus olhos pelo meu sentir você tão perto do momento de um vento. Tentarei a primeira fala recitando os segredos esquecidos nas entrelinhas dos meus rascunhos. Olharei meu inverso num espelho e me calarei surdo por um tempo indefinido olhando meu umbigo, até que o terrível ponto venha para ser enfrentado na mais branca solidão e me permitir ouvir: – Vá! Assim foi que nasci, num dia de chuva, numa hora e seus minutos entre os pingos da chuva de um dia de sol que compõe um pensamento infinitamente inacabado, quando ainda tocava uma música ótica no ritmo do aroma da água caída no descanso da sede (ou

sobre os olhos de uma criança que corria alegre no jardim atrás de sua bola). Na minha segunda dor nessa vida, no meu segundo piscar de olhos… hábito, vício, morte do tempo e esquinas vazias do não sempre medo de ser (e talvez não ser), do sempre será, sem saber o que é isso. Essa nova minha vida, tem sonhos do ontem, do amanhã e do enfim que poderia ser e continua sendo a pulseira aberta do meu relógio de pulso sobre a mesa à espera de que tudo fuja, à espera de que tudo que mude

para nós (em nós e por nós) para que nosso coração não pare, quando estivermos no meio dos vermelhos nus de nossas bocas na rua onde você mora agora. Esta vida, sentida mais próxima do que permitem a direita, a esquerda, o de cima e o de baixo da sua cama, é feita de palavras que dançam sobre os cacos de vidros de um poema pintado numa taça de vinho tinto, manchado de batom, que caiu da mesa sobre o tapete azul cumprido, que você meu deu para decorar melhor a sala do meu apartamento dizendo: – Assim, você poder caminhar sobre o céu, de lá para cá, todas as vezes que ficar a minha espera.

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2 Respostas to “TAPETE AZUL CUMPRIDO – 19º. QUADRO DA OBRA ZEROMUNDO”

  1. dani Ela Says:

    e tu, tens caminhado muitas vezes sobre o tapete azul???
    estou degustando do seu blog, espero que tenha inspiracoes suficientes para postar muitas outras vezes.
    bjs

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