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ALGO – 23 QUADRO DA OBRA ZEROMUNDO

6 de novembro de 2010

Vejo a porta fechada como a certeza virada na recriação do mundo e, diante dela, me sinto sem lugar no sempre vasto incompreensível momento da existência não passageira da noite que enche a mesa com o meu estar no centro da procura do interior dos rascunhos da minha tristeza, que não sabe ser triste, mas que não encontra risos. A porta se abre e vejo seus cabelos desfazendo as minhas ideias. Seu simples sorriso de estar aqui me permite exercitar o aprendizado de um cachorro molhado da chuva abanando o rabo. Você é alguém una neste tempo e lugar, próprios do falar do presente reconhecido da sexta feira, com a satisfação de bares, boates e das abertas sensações dos sentidos mornos e úmidos das luzes da rua augusta que vão sendo trazidas sem culpa pelo rastro do teu

cheiro. Não vejo mais o sentido invertido da porta aberta e nem a mesa vazia das nossas taças da noite abandonadas pelo consumo de nossa sede na incógnita iluminação do tom de rosa sob véus. Fecho e a abro os olhos e vejo seu corpo flutuando em dança sobre o tapete, tendo ao fundo o sopro

ofegante das luzes de um celular vibrante que parece quer tocá-la com a mesma suavidade das minhas mãos. Que memórias poderíamos ter do óbvio absoluto da psicodélica mistura de saliva em nossos beijos e blues? E nossas vozes sussurradas em palavras vagabundas e pagãs de quer um

ao outro? A mesa do computador se perde no movimento das minhas mensagens e a cortina se agita em línguas múltiplas que seu quadril finge ignorá-las, então percebo que não é cortina que te deseja e nem vento lá de fora… mas é algo maior , mais forte que o vento… é algo que vem da origem dos relâmpagos que antecedem a tempestade que se anuncia, é aquilo que é incompleto sem seu corpo, é o que dança e me envolve fundindo meus olhos nos sons dos trovões e nos fleches do encontro deles com o seu olhar, que apenas reviram calculando a justa medida da velocidade do meu sangue fluindo uníssono das minhas veias para se diluir no mar de fumaça azul do meu coração que, agora, só bate em teus seios. Ouço a primeira gota e chuva e a infinidade das que se seguiram uma após a outra se estilhaçando em pedaços líquidos que vão sendo vorazmente sugados pela imagem plástica da rosa sob véus da varanda cada vez mais brilhante e próxima do clarear lento e silencioso do dia novo. Vejo a foto revelada do perfume do prazer de nossos corpos ziguezagueando por entre meus livros, enquanto o batom já vermelho em seus lábios se prepara para fechar a porta e dizer: Preciso ir… me liga.