Archive for julho \27\-03:00 2014

DOISEMBLUES

27 de julho de 2014

Augustin

Eu não sei quem está louco

Augustin

Mas você…ou eu…está louco

Augustin

Cara  a cara… Augustin

Quero ver olho no olho

Por quê

Porque, Augustin

O louco  vê o  amor  em  discos voadores o tempo todo

E quem é de nós

Quem é de nós, Augustin, não fica louco

Então, me diz Augustin

Explica Augustin

O que é que brilhou nos meus olhos

 ainda há pouco

TOM DE ROSA SOB VÉUS

27 de julho de 2014

Vejo a porta fechada como a certeza virada na recriação do mundo e, diante dela, fico no sempre vasto incompreensível momento da existência não passageira da noite que enche a mesa com palavras dos rascunhos que não sabem ser tristes. A porta se abre e vejo seus cabelos desfazendo as minhas ideias. Seu simples sorriso de estar aqui permite exercitar o aprendizado de um cachorro molhado da chuva abanando o rabo. É satisfação de bares, boates e das abertas sensações dos sentidos mornos e úmidos das luzes da rua augusta,  que se revela  sem culpa pelo rastro do teu cheiro. Não vejo mais o sentido invertido da porta aberta, a mesa vazia e nem das taças da noite abandonadas pelo consumo da sede na incógnita iluminação do tom de rosa sob véus. Fecho… abro os olhos e vejo seu corpo flutuando em dança sobre o tapete, tendo ao fundo as luzes de um celular vibrante e o sopro ofegante da cortina, que parece quer tocá-la com a mesma suavidade das mãos na mistura de saliva com beijos, blues e vozes sussurradas em palavras vagabundas e pagãs de quer um ao outro. A mesa, os rascunhos, as taças se perdem no movimento… e a cortina se agita em línguas múltiplas, que seu quadril finge ignorá-las. Percebo que não é cortina e nem o vento  que te desejam. É algo maior.  É algo que vem da origem dos relâmpagos que antecedem a tempestade que se anuncia. É aquilo que é incompleto sem seu corpo. É a existência que dança e me envolve fundindo os olhos nos sons dos trovões e nos fleches do encontro deles com o seu olhar, que apenas reviram calculando a justa medida da velocidade do meu sangue fluindo uníssono das veias e coração que bate e rebate  em teus seios. Ouço a primeira gota de chuva e a infinidade das que se seguiram, uma após a outra, se estilhaçando em pedaços líquidos, que vão sendo vorazmente sugados pela fotografia da varanda… cada vez mais brilhante e próxima  da revelação  na emulsão do perfume do prazer ziguezagueante por entre livros de poesia, enquanto o batom já vermelho em seus lábios  iluminando o dia  se prepara para fechar a porta e dizer como se escreve: -… me liga.

ENTRE A LIBERDADE E O PARAÍSO DO VOTO SEM SEGREDO

27 de julho de 2014

ENTRE A LIBERDADE E O PARAÍSO DO VOTO SEM SEGREDO

Outro dia, no metrô da rotina entre  a estação Liberdade e o Paraíso, me levantei do banco azul para dar lugar a um senhor mais senhor que eu. Enquanto ele ainda se ajeitava no assento  a composição do metrô parou e,  isso, foi o suficiente para  um  início de conversa que,  fatalmente,  a conjuntura atual   levou  à  política  da disputa  eleitoral. Daquela conversa registro, aqui,  um pouco daquilo que ficou na minha memória  sobre o relato que ele fez de uma   conversa  travada alhures  com uma  jovem pesquisadora de um desses institutos de pesquisa. Um diálogo  que revelava a  importância do segredo no voto dos cidadãos em uma democracia.

“-  O senhor gostaria de responder a nossa pesquisa eleitoral?

– Não.

– Alguma razão especial? Perguntou a moça olhando e já anotando a resposta dada em sua planilha.

– O voto é secreto.

– Mas  é só uma pesquisa  eleitoral?

– Então espere a apuração dos votos para sua pesquisa ser precisa.

– Eu vou anotar aqui que o senhor faz parte do grupo pesquisado que não quiz responder. Tá bom assim?

– Desculpe, mas você não me entendeu…

– Ah! …então o senhor não sabe em quem vai votar!?

– Desculpe, novamente!   O que você precisa entender é que eu não estou participando de sua pesquisa eleitoral.

–  O senhor não precisa se preocupar,  porque  não há identificação dos pesquisados na pesquisa.

– Quer dizer que  eu estou participando da pesquisa, mesmo que eu não queira participar  de qualquer dos seus  grupos pesquisados e mesmo que eu não forneça qualquer resposta para você?

– É!”