TOM DE ROSA SOB VÉUS

Vejo a porta fechada como a certeza virada na recriação do mundo e, diante dela, fico no sempre vasto incompreensível momento da existência não passageira da noite que enche a mesa com palavras dos rascunhos que não sabem ser tristes. A porta se abre e vejo seus cabelos desfazendo as minhas ideias. Seu simples sorriso de estar aqui permite exercitar o aprendizado de um cachorro molhado da chuva abanando o rabo. É satisfação de bares, boates e das abertas sensações dos sentidos mornos e úmidos das luzes da rua augusta,  que se revela  sem culpa pelo rastro do teu cheiro. Não vejo mais o sentido invertido da porta aberta, a mesa vazia e nem das taças da noite abandonadas pelo consumo da sede na incógnita iluminação do tom de rosa sob véus. Fecho… abro os olhos e vejo seu corpo flutuando em dança sobre o tapete, tendo ao fundo as luzes de um celular vibrante e o sopro ofegante da cortina, que parece quer tocá-la com a mesma suavidade das mãos na mistura de saliva com beijos, blues e vozes sussurradas em palavras vagabundas e pagãs de quer um ao outro. A mesa, os rascunhos, as taças se perdem no movimento… e a cortina se agita em línguas múltiplas, que seu quadril finge ignorá-las. Percebo que não é cortina e nem o vento  que te desejam. É algo maior.  É algo que vem da origem dos relâmpagos que antecedem a tempestade que se anuncia. É aquilo que é incompleto sem seu corpo. É a existência que dança e me envolve fundindo os olhos nos sons dos trovões e nos fleches do encontro deles com o seu olhar, que apenas reviram calculando a justa medida da velocidade do meu sangue fluindo uníssono das veias e coração que bate e rebate  em teus seios. Ouço a primeira gota de chuva e a infinidade das que se seguiram, uma após a outra, se estilhaçando em pedaços líquidos, que vão sendo vorazmente sugados pela fotografia da varanda… cada vez mais brilhante e próxima  da revelação  na emulsão do perfume do prazer ziguezagueante por entre livros de poesia, enquanto o batom já vermelho em seus lábios  iluminando o dia  se prepara para fechar a porta e dizer como se escreve: -… me liga.

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