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CAMAS SEM LENÇOL – 3º. QUADRO DA OBRA ZEROMUNDO

6 de março de 2010

Um CD que toca. A segunda capa, o verso da capa, talvez a última capa, a capa que não da frente, mas a capa segunda de um livro de horas que trata de minutos e segundos com seus ponteiros parados e acordes maiores e menores no fundo de pó que encobre os papeis e papéis que a vida permite acumular. Papéis de representação. Papéis molduras duma expressão. Muitas lógicas. A bíblia. Terminou a nossa bebida. O segundo copo se quebra ainda cheio. Você vai embora. Eu fico em qualquer lugar. Eu fico, mesmo que partíssemos juntos, em todas as suas despedidas. Eu fico, como envelopes de cartas que já foram lidas, porque não peço e não perco nada de você, que é como um poema que não termina de ser escrito, ainda que cada risco não seja uma palavra completa, na dúvida de ser a última ou não. As folhas de rascunho não contam, o espaço não conta. Por você vou escrevendo além da folha, vou, em letras, pelos lençóis brancos sem pauta, pelo chão de paralelas figuras, sobre o tapete de desenho macio e continuo pelas paredes livres do quarto e pelo teto. Vou assim, palavra por palavra, escrevendo nas linhas cabíveis e infinitas que a superfície e interior do volume contido neste quarto permitem e, quando não houver mais linhas sem palavras postas sobre elas, sobre estas palavras escreverei novas e diferentemente. Você é isto, um poema sob o outro, onde pelo amor primeiro escrito, o mesmo amor escreveu outro, não para se esquecer do poema sub escrito, mas para dar suporte ao novo. Quem sabe um crítico apenas identifique tudo que foi escrito como rascunhos de rabiscos e riscos de um poeta, na poesia que tentou mostrar, com a ponta da caneta, como e quando ficou eternizada a duração do perfume de alguém amado. O perfume que chegou com você por todos os lugares dos meus olhos de poeta e que abriu e fechou a porta deixando meu espírito vagando sem esperança lá na rua, enquanto meu coração e corpo, por detrás da luz de néon, se disfarçava de amante por puro prazer da sua conquista. Felizmente sua imperfeita vaidade de vir, sorrir e partir é rápida cura da minha paixão que, sem ter e nem perceber o tempo de espera, mantém a fome pelo fluxo da viagem e a sede pelo toque artístico da chuva na janela, num sentir tudo, quando ainda nada havia começado. Fico só com meu corpo precisando encontrar o espírito, lá na rua, na rotina do relógio de hoje e ontem. Saio por aí, com passos e olhar de uma filmagem sobre as pessoas em sentido contrário do horário da meia noite, como água que escorre numa parede repleta de fotografias noturnas. Foi assim que você encontrou… um divisível poeta, no reflexo da vitrine na imagem da lantejoula da roupa do manequim. É assim que nos encontramos num universo barato, numa rotina de noite a noite, na mesma hora, na mesma rua, nas mesmas palavras escritas e reescritas em toda a superfície de todas as coisas deste mesmo quarto, sem número, sem nomes. É assim que encontro meu espírito para perdê-lo por você, quando o mundo é zeromundo, com tudo o que nele habita e cria como espaço entre o como e o para que da nossa paixão, diante de seu sorriso de adeus e o beijo deixado no espelho do verso do fundo do primeiro copo, que ficou meio vazio sem seu último gole.